não há nada mais cruel para um homem do que acordar, olhar-se no espelho e constatar: tornei-me honesto.
o homem honesto é ateu, porque não consegue encontrar conforto no ombro de um mito. nessas horas, ele lembra da filosofia (mas não da religião) taoista, e sabe que na moderação está o segredo para que nada seja excepcional, mas também nunca desprezível; para que nada seja ruim para sempre, nem felicidade eterna.
o homem honesto sofre porque é responsável por todos os seus atos. sabe que mesmo aqueles que o levaram a consequências indesejadas são obra sua, pois poderia ter dito "não" a qualquer momento. se não o disse, é responsável.
o homem honesto é livre. livre da única liberdade possível a seres que possuem, na raiz de sua existência, a desliberdade: não escolheram ser, portanto nunca serão plenos.
o homem honesto encara essa crueldade buscando consolo num único ideal, muito vago: que sua honestidade seja o valor mais caro neste mundo.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
o dilema do cético
o telefone tocou até a ligação cair. não lembro se cheguei a tentar uma segunda vez, aconteceram muitas coisas nessas últimas dezesseis horas para eu me lembrar desse detalhe. o fato é que isso me obrigou a pegar um táxi na rua. havia um parado em frente ao meu prédio, uma pessoa desembarcando. o motorista fez o retorno no meio da pista e rumou para o túnel.
poucos segundos depois, seu celular tocou. em outro dia eu me incomodaria com um taxista dividido entre o volante e o telefone, mas sua conversa me deteve. não estamos mais juntos. alguém fala do outro lado. desde ontem. na verdade, desde anteontem. o diálogo – que eu presenciava unilateralmente – se desdobrou por mais um par de frases. ao final, não pude deixar de inverter o protocolo e puxar conversa. desculpe a indiscrição, mas você terminou com uma namorada ou esposa recentemente? namorada. foi isso mesmo, anteontem. curioso. estou indo encontrar minha namorada para ela terminar comigo. pelos minutos que se seguiram fomos amigos, falando sobre a vida e os relacionamentos. nos despedimos com desejos recíprocos de sorte e feliz natal.
quando assinei o contrato de aluguel do apartamento de onde escrevo agora e peguei as chaves, nos primeiros dias de abril, senti um grande alívio, soma de diversas certezas. a maior delas é que ninguém me tiraria daqui quando chegasse o mês de dezembro. porque os últimos dois meses de dezembro haviam sido marcados por despedidas e mochilas nas costas. este ano seria diferente. não dependeria de ninguém. ninguém poderia tomar meu espaço. mas deus reservas as mais finas ironias para o mês de dezembro. deve ser castigo aos céticos que o ignoram justo na época em que se comemora sua encarnação. um teto não é única coisa de valor que um homem tem, nem a única que lhe pode ser tomada. então ele se programou com antecedênia e preparou por exatos quatro (ou foram seis?) meses algo que me fosse caro, para ter o que me tomar.
acordei depois das onze, ainda com as compras de natal incompletas. precisava encontrar o presente mais importante de todos, o do meu avô: uma garrafa de porto, mas não qualquer um. precisava ser um ramos pinto, como os que ele comprava sem dificuldades uns cinquenta natais atrás. já havia percorrido várias delis ao longo da semana, sem sucesso. me encaminhava para botafogo quando decidi fazer uma tentativa no largo do machado, antes de encarar o metrô. um a zero. restava então passar na papelaria ao lado para comprar os embrulhos da garrafa do meu avô, do meu pai, e do presente da minha sobrinha-afilhada. a senhora tem aquelas embalagens para garrafa? tenho sim; tem essa aqui, tipo saco, e essa outra... quero daquela ali, de papelão, duas. ela pegou as embalagens sorrindo, eram as duas últimas da loja. um segundo depois uma mulher pedia a mesma coisa, e ela lamentou. o rapaz pediu primeiro. queria também um embrulho tipo saco, bem grande. serve esse aqui? serve. outro risada, era também o último daqueles. hoje é véspera de natal, eu sabia que corria o risco de não encontrar. mas você encontrou, oras. os últimos, dos dois tipos que precisava. você tem sorte, ein, deve ser daquelas pessoas que conseguem tudo que querem. um feliz natal.
obrigado, senhor, pelas finas ironias.
mas sem amém.
poucos segundos depois, seu celular tocou. em outro dia eu me incomodaria com um taxista dividido entre o volante e o telefone, mas sua conversa me deteve. não estamos mais juntos. alguém fala do outro lado. desde ontem. na verdade, desde anteontem. o diálogo – que eu presenciava unilateralmente – se desdobrou por mais um par de frases. ao final, não pude deixar de inverter o protocolo e puxar conversa. desculpe a indiscrição, mas você terminou com uma namorada ou esposa recentemente? namorada. foi isso mesmo, anteontem. curioso. estou indo encontrar minha namorada para ela terminar comigo. pelos minutos que se seguiram fomos amigos, falando sobre a vida e os relacionamentos. nos despedimos com desejos recíprocos de sorte e feliz natal.
* * *
quando assinei o contrato de aluguel do apartamento de onde escrevo agora e peguei as chaves, nos primeiros dias de abril, senti um grande alívio, soma de diversas certezas. a maior delas é que ninguém me tiraria daqui quando chegasse o mês de dezembro. porque os últimos dois meses de dezembro haviam sido marcados por despedidas e mochilas nas costas. este ano seria diferente. não dependeria de ninguém. ninguém poderia tomar meu espaço. mas deus reservas as mais finas ironias para o mês de dezembro. deve ser castigo aos céticos que o ignoram justo na época em que se comemora sua encarnação. um teto não é única coisa de valor que um homem tem, nem a única que lhe pode ser tomada. então ele se programou com antecedênia e preparou por exatos quatro (ou foram seis?) meses algo que me fosse caro, para ter o que me tomar.
* * *
acordei depois das onze, ainda com as compras de natal incompletas. precisava encontrar o presente mais importante de todos, o do meu avô: uma garrafa de porto, mas não qualquer um. precisava ser um ramos pinto, como os que ele comprava sem dificuldades uns cinquenta natais atrás. já havia percorrido várias delis ao longo da semana, sem sucesso. me encaminhava para botafogo quando decidi fazer uma tentativa no largo do machado, antes de encarar o metrô. um a zero. restava então passar na papelaria ao lado para comprar os embrulhos da garrafa do meu avô, do meu pai, e do presente da minha sobrinha-afilhada. a senhora tem aquelas embalagens para garrafa? tenho sim; tem essa aqui, tipo saco, e essa outra... quero daquela ali, de papelão, duas. ela pegou as embalagens sorrindo, eram as duas últimas da loja. um segundo depois uma mulher pedia a mesma coisa, e ela lamentou. o rapaz pediu primeiro. queria também um embrulho tipo saco, bem grande. serve esse aqui? serve. outro risada, era também o último daqueles. hoje é véspera de natal, eu sabia que corria o risco de não encontrar. mas você encontrou, oras. os últimos, dos dois tipos que precisava. você tem sorte, ein, deve ser daquelas pessoas que conseguem tudo que querem. um feliz natal.
* * *
obrigado, senhor, pelas finas ironias.
mas sem amém.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
há problemas maiores
desfecho do dia dos pais: o presente foi, de fato, um exemplar de o filho eterno, que nem eu mesmo tinha terminado de ler. nos dias seguintes à data, enquanto continuava com o livro, eu pensava, não é o tipo de literatura que meu pai gosta. ano passado dei pra ele um romance policial, simenon, coisa boba. esse ano o importante não era agradar. era mostrar o meu gosto. era eu, falando, 'pai, senta aqui, quero te mostrar um livro que gosto muito...'
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
a pergunta...
... que bate como uma gigantesca pedra sobre a cabeça, ou talvez a pergunta que bate como o desejo de que uma gigantesca pedra caía sobre a cabeça:
'quem sabe se, durante todo esse tempo, a culpa foi sempre e somente minha?'
é o ponto de partida para a pior das reflexões.
'quem sabe se, durante todo esse tempo, a culpa foi sempre e somente minha?'
é o ponto de partida para a pior das reflexões.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
o dia dos pais
sua irmã havia lhe chamado a atenção no meio da semana para o presente do dia dos pais, avisando que daria uma camisa polo, e ele sentiu um mal-estar por ainda não ter pensado no assunto quatro dia antes da data, por não saber o que comprar, mas principalmente por perceber que, no fundo, não queria dar presente algum.
deixou o problema de lado até o dia seguinte, quando a crescente desorganização em seu apartamento o cutucou. lembrou-se que poucos meses atrás desejara dedicar-se tanto aos seus planos mais íntimos que não sobrasse tempo para lavar a louça ou pendurar em cabides a roupa saída do varal, tudo isso para que vivesse em meio a uma bagunça sincera, como aquela enaltecida por bukowski em seu 'o capitão saiu para o almoço'.
lembrou-se dos comentários da mãe sobre um dos primeiros apartamento em que o pai morou, naquele prédio que viria a conhecer quarenta anos depois, onde ficava o consultório do seu terapeuta, e teve medo de tornar-se igual a ele.
pensou por um momento em presenteá-lo com um livro, mas que livro?, era o seu presente-padrão, denotava mais uma vez a desimportância do gesto. livros, eram eles que tomavam seu tempo e provocavam o acúmulo de pratos sujos e camisas amassadas.
aumentou ainda mais o medo quando lembrou que agora estava só, mas estava bem. como imaginava que estaria o pai, do outro lado da cidade. compartilhavam essa prazerosa solidão, separados por três túneis e um elevado, pelo triste fato de que não sabiam conviver muito bem com ninguém, como não souberam conviver um com o outro.
voltou a pensar no presente-livro, e graças a ele encontrou um ponto de divergência. sua bagunça devia-se ao excesso de leituras, ao passo que seu pai não lia. o brusco fim do alívio: não lia mais. mas fora, também, um leitor ávido durante a maior parte da vida. de modo tal que até mesmo suas peculiaridades, como o costume de ler deitado de bruços no sofá, com o livro aberto no chão, foram imitadas por sua filha. aquela, que vai presenteá-lo com uma camisa polo.
viu-se então numa situação que muitos brindam com a frase 'as coisas não acontecem por acaso', para a qual seu ceticismo ainda não produziu equivalente. repousava sobre a cama 'o filho eterno', e decidiu que, se tiver de dar ao pai um livro, será este.
mas o que ele gostaria mesmo dar a seu pai é este texto.
deixou o problema de lado até o dia seguinte, quando a crescente desorganização em seu apartamento o cutucou. lembrou-se que poucos meses atrás desejara dedicar-se tanto aos seus planos mais íntimos que não sobrasse tempo para lavar a louça ou pendurar em cabides a roupa saída do varal, tudo isso para que vivesse em meio a uma bagunça sincera, como aquela enaltecida por bukowski em seu 'o capitão saiu para o almoço'.
lembrou-se dos comentários da mãe sobre um dos primeiros apartamento em que o pai morou, naquele prédio que viria a conhecer quarenta anos depois, onde ficava o consultório do seu terapeuta, e teve medo de tornar-se igual a ele.
pensou por um momento em presenteá-lo com um livro, mas que livro?, era o seu presente-padrão, denotava mais uma vez a desimportância do gesto. livros, eram eles que tomavam seu tempo e provocavam o acúmulo de pratos sujos e camisas amassadas.
aumentou ainda mais o medo quando lembrou que agora estava só, mas estava bem. como imaginava que estaria o pai, do outro lado da cidade. compartilhavam essa prazerosa solidão, separados por três túneis e um elevado, pelo triste fato de que não sabiam conviver muito bem com ninguém, como não souberam conviver um com o outro.
voltou a pensar no presente-livro, e graças a ele encontrou um ponto de divergência. sua bagunça devia-se ao excesso de leituras, ao passo que seu pai não lia. o brusco fim do alívio: não lia mais. mas fora, também, um leitor ávido durante a maior parte da vida. de modo tal que até mesmo suas peculiaridades, como o costume de ler deitado de bruços no sofá, com o livro aberto no chão, foram imitadas por sua filha. aquela, que vai presenteá-lo com uma camisa polo.
viu-se então numa situação que muitos brindam com a frase 'as coisas não acontecem por acaso', para a qual seu ceticismo ainda não produziu equivalente. repousava sobre a cama 'o filho eterno', e decidiu que, se tiver de dar ao pai um livro, será este.
mas o que ele gostaria mesmo dar a seu pai é este texto.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
eça
os vapores do vinho e a fumaça me inspiraram. quando eu virei a esquina de casa eles sopraram no meu ouvido e eu lembrei que à tarde, não sei direito porquê, a luísa me falou estou lendo eça de queiroz, eu perguntei que livro, ela disse os maias, e eu respondi eça de queiroz é o escritor preferido do meu pai, ele leu tudo do eça, tínhamos a obra completa lá em casa (nessa hora eu lembrei que moro sozinho e não sabia se me faria entender com o 'lá em casa'), mas nunca li, e continuando ela já falou li também o primo basílio, respondi, o primo basílio é o livro preferido do meu pai, ela disse você devia ler, eu expliquei sabe por que eu sei que é o livro preferido dele, era uma pergunta retórica, não esperei para dar seguimento, sabe por que eu sei disso, retórica de novo, na única vez em que me mudei com a minha família (outras duas vezes me mudei da minha família) na única vez em que me mudei com a minha família eu tinha onze anos, estava tirando os livros todos da caixa, quando quase rasguei a lombada do primo basílio, minha mãe se assustou, esse é o livro preferido do seu pai, mas o fato é que meu pai nunca me deu um livro e disse você devia ler esse livro, bruno.
por isso que digo que me criei sozinho, mas você deve sempre desconfiar de um homem que bate no peito e diz eu me criei, um homem que fala isso finge ter orgulho, mas na verdade ele só está expressando uma tristeza profunda.
por isso que digo que me criei sozinho, mas você deve sempre desconfiar de um homem que bate no peito e diz eu me criei, um homem que fala isso finge ter orgulho, mas na verdade ele só está expressando uma tristeza profunda.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
paraty
a flip foi uma experiência tão íntima que me recuso a compartilhá-la. experiência que inclui não só as quarenta e oito horas que passei em paraty, mas também a primeira semana no novo emprego e o debate a que assisti segunda-feira passada.
restaria, portanto, comentar os passeios pela cidade. este assunto, porém, apesar de não ser privado, não interessaria a mais ninguém além dos que estavam ao meu lado nesses passeios, e seria redundante repetir tudo aqui.
não fosse uma pequena dor que sinto dentro de mim por uma triste coincidência, poderia dizer que estou feliz.
restaria, portanto, comentar os passeios pela cidade. este assunto, porém, apesar de não ser privado, não interessaria a mais ninguém além dos que estavam ao meu lado nesses passeios, e seria redundante repetir tudo aqui.
não fosse uma pequena dor que sinto dentro de mim por uma triste coincidência, poderia dizer que estou feliz.
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