sua irmã havia lhe chamado a atenção no meio da semana para o presente do dia dos pais, avisando que daria uma camisa polo, e ele sentiu um mal-estar por ainda não ter pensado no assunto quatro dia antes da data, por não saber o que comprar, mas principalmente por perceber que, no fundo, não queria dar presente algum.
deixou o problema de lado até o dia seguinte, quando a crescente desorganização em seu apartamento o cutucou. lembrou-se que poucos meses atrás desejara dedicar-se tanto aos seus planos mais íntimos que não sobrasse tempo para lavar a louça ou pendurar em cabides a roupa saída do varal, tudo isso para que vivesse em meio a uma bagunça sincera, como aquela enaltecida por bukowski em seu 'o capitão saiu para o almoço'.
lembrou-se dos comentários da mãe sobre um dos primeiros apartamento em que o pai morou, naquele prédio que viria a conhecer quarenta anos depois, onde ficava o consultório do seu terapeuta, e teve medo de tornar-se igual a ele.
pensou por um momento em presenteá-lo com um livro, mas que livro?, era o seu presente-padrão, denotava mais uma vez a desimportância do gesto. livros, eram eles que tomavam seu tempo e provocavam o acúmulo de pratos sujos e camisas amassadas.
aumentou ainda mais o medo quando lembrou que agora estava só, mas estava bem. como imaginava que estaria o pai, do outro lado da cidade. compartilhavam essa prazerosa solidão, separados por três túneis e um elevado, pelo triste fato de que não sabiam conviver muito bem com ninguém, como não souberam conviver um com o outro.
voltou a pensar no presente-livro, e graças a ele encontrou um ponto de divergência. sua bagunça devia-se ao excesso de leituras, ao passo que seu pai não lia. o brusco fim do alívio: não lia mais. mas fora, também, um leitor ávido durante a maior parte da vida. de modo tal que até mesmo suas peculiaridades, como o costume de ler deitado de bruços no sofá, com o livro aberto no chão, foram imitadas por sua filha. aquela, que vai presenteá-lo com uma camisa polo.
viu-se então numa situação que muitos brindam com a frase 'as coisas não acontecem por acaso', para a qual seu ceticismo ainda não produziu equivalente. repousava sobre a cama 'o filho eterno', e decidiu que, se tiver de dar ao pai um livro, será este.
mas o que ele gostaria mesmo dar a seu pai é este texto.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
eça
os vapores do vinho e a fumaça me inspiraram. quando eu virei a esquina de casa eles sopraram no meu ouvido e eu lembrei que à tarde, não sei direito porquê, a luísa me falou estou lendo eça de queiroz, eu perguntei que livro, ela disse os maias, e eu respondi eça de queiroz é o escritor preferido do meu pai, ele leu tudo do eça, tínhamos a obra completa lá em casa (nessa hora eu lembrei que moro sozinho e não sabia se me faria entender com o 'lá em casa'), mas nunca li, e continuando ela já falou li também o primo basílio, respondi, o primo basílio é o livro preferido do meu pai, ela disse você devia ler, eu expliquei sabe por que eu sei que é o livro preferido dele, era uma pergunta retórica, não esperei para dar seguimento, sabe por que eu sei disso, retórica de novo, na única vez em que me mudei com a minha família (outras duas vezes me mudei da minha família) na única vez em que me mudei com a minha família eu tinha onze anos, estava tirando os livros todos da caixa, quando quase rasguei a lombada do primo basílio, minha mãe se assustou, esse é o livro preferido do seu pai, mas o fato é que meu pai nunca me deu um livro e disse você devia ler esse livro, bruno.
por isso que digo que me criei sozinho, mas você deve sempre desconfiar de um homem que bate no peito e diz eu me criei, um homem que fala isso finge ter orgulho, mas na verdade ele só está expressando uma tristeza profunda.
por isso que digo que me criei sozinho, mas você deve sempre desconfiar de um homem que bate no peito e diz eu me criei, um homem que fala isso finge ter orgulho, mas na verdade ele só está expressando uma tristeza profunda.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
paraty
a flip foi uma experiência tão íntima que me recuso a compartilhá-la. experiência que inclui não só as quarenta e oito horas que passei em paraty, mas também a primeira semana no novo emprego e o debate a que assisti segunda-feira passada.
restaria, portanto, comentar os passeios pela cidade. este assunto, porém, apesar de não ser privado, não interessaria a mais ninguém além dos que estavam ao meu lado nesses passeios, e seria redundante repetir tudo aqui.
não fosse uma pequena dor que sinto dentro de mim por uma triste coincidência, poderia dizer que estou feliz.
restaria, portanto, comentar os passeios pela cidade. este assunto, porém, apesar de não ser privado, não interessaria a mais ninguém além dos que estavam ao meu lado nesses passeios, e seria redundante repetir tudo aqui.
não fosse uma pequena dor que sinto dentro de mim por uma triste coincidência, poderia dizer que estou feliz.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
apocalipse
velho, lembra daquela frase "aos mornos cuspo fora da minha boca"? livro do apocalipse. essa frase me assombrou durante toda a infância, cara. mas é exatamente isso, jesus já me cuspiu faz um bom tempo. me deixou aqui, amornado. não fui capaz de construir uma vida interessante o bastante, que desse uma biografia. nem tão tranquila que me tornasse exemplo.
sobrou esse pouco aqui, que eu vou usando até acabar.
sobrou esse pouco aqui, que eu vou usando até acabar.
terça-feira, 2 de junho de 2009
carta
querida m.,
hoje foi um dia bastante estranho. acordei antes de o nascer do sol e, por isso, passei toda a manhã sonolento. acabei dormindo novamente pouco antes de meio-dia. acordei duas horas depois, enjoado e sem apetite. porém, como me ocupar das refeições é essencial para escapar ao tédio, decidi sair para procurar um restaurante, algo que me despertasse a fome. acabei por entrar em japonês aqui perto.
sentei em uma mesa no canto e de onde podia observar a rua. os restaurantes sem televisão são tão bons, pena cobrarem tão caro justamente pela ausência de um aparelho. além de tudo havia boa música. quando cheguei tocava aquela primeira música daquele primeiro disco... esqueça, você não vai entender. essa era uma das músicas que eu escutava enquanto planejava deixá-la.
os orientais são bastante espertos, mas falo da esperteza que envolve sensibilidade, não inteligência. nos fizeram aprender a dividir mais que a mesa: somos obrigados a dividir também o prato. tábuas e até barcas de verdadeiros jardins de peixes. mas hoje me restou comer sozinho e calado, como que em oração.
me senti satisfeito mais rápido do que esperava. de qualquer forma, pedi ao garçom os dois harumakis a que tinha direito para a sobremesa. o cozinheiro, em sua pureza de coração, serviu-os separadamente, um em cada prato. afinal de contas, quem almoça sozinho num sábado à tarde?
o garçom levou-os à mesa exatamente como saíram da cozinha, preferindo um pedindo de desculpas à correção. contrariando toda a sensibilidade oriental. me expondo à minha própria solidão.
decidi não tocar num dos pratos. ficou claro para mim que o segundo harumaki era seu. acredito que ainda está lá, intacto, à sua espera.
b.
hoje foi um dia bastante estranho. acordei antes de o nascer do sol e, por isso, passei toda a manhã sonolento. acabei dormindo novamente pouco antes de meio-dia. acordei duas horas depois, enjoado e sem apetite. porém, como me ocupar das refeições é essencial para escapar ao tédio, decidi sair para procurar um restaurante, algo que me despertasse a fome. acabei por entrar em japonês aqui perto.
sentei em uma mesa no canto e de onde podia observar a rua. os restaurantes sem televisão são tão bons, pena cobrarem tão caro justamente pela ausência de um aparelho. além de tudo havia boa música. quando cheguei tocava aquela primeira música daquele primeiro disco... esqueça, você não vai entender. essa era uma das músicas que eu escutava enquanto planejava deixá-la.
os orientais são bastante espertos, mas falo da esperteza que envolve sensibilidade, não inteligência. nos fizeram aprender a dividir mais que a mesa: somos obrigados a dividir também o prato. tábuas e até barcas de verdadeiros jardins de peixes. mas hoje me restou comer sozinho e calado, como que em oração.
me senti satisfeito mais rápido do que esperava. de qualquer forma, pedi ao garçom os dois harumakis a que tinha direito para a sobremesa. o cozinheiro, em sua pureza de coração, serviu-os separadamente, um em cada prato. afinal de contas, quem almoça sozinho num sábado à tarde?
o garçom levou-os à mesa exatamente como saíram da cozinha, preferindo um pedindo de desculpas à correção. contrariando toda a sensibilidade oriental. me expondo à minha própria solidão.
decidi não tocar num dos pratos. ficou claro para mim que o segundo harumaki era seu. acredito que ainda está lá, intacto, à sua espera.
b.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
café
depois de quase dois meses tomando espresso, tanto da cafeteira italiana de fogão quanto da elétrica (sim, eu tenho uma máquina de espresso, um dos presentes mais perfeitos que já recebi), comecei a sentir saudades do meu próprio café. água fervendo na panela, coador de papel, passar direto na caneca, devidamente escaldada. matei essa saudade durante o final de semana, e foi perfeito. pude ver que ainda estou em boa forma. é fácil fazer café usando dispositivos que indicam sem erro a quantidade de pó e de água. mas passar no coador exige técnica e um pouco mais paciência. em compensação, beber o café que eu mesmo preparei me traz uma tranquilidade incomparável. aquele tal de manuel bandeira tinha razão.
sábado, 16 de maio de 2009
minha liberdade e a parábola da pimenta de sichuan
manhã de sábado fria para os padrões cariocas. a temperatura deve estar em torno dos 20ºC, com sensação térmica abaixo disso por conta do vento, mas o suficiente para as pessoas tirarem os casacos dos armários e a cidade mudar de aspecto. além disso, o céu está cinza e fechado, uma constante ameaça de chuva. em suma, uma manhã em que o rio de janeiro parecia bastante com são paulo.
apesar da ausência de informações oficiais para embasar minha teoria, não tenho dúvida de que existe uma colônia oriental na região flamengo-laranjeiras. é composta em sua maioria por chineses e a artéria principal é o eixo rua cosme velho/rua das laranjeiras/rua marquês de abrantes. só de mercearias são três, mais do que consigo contar por todo o resto da cidade. e foi justamente a uma delas que me dirigi.
nos finais de semana, aquele último quarteirão da marquês de abrantes se assemelha bastante ao bairro da liberdade. falta ainda a feira, uma pena, mas o número de olhos puxados que cruzam meu caminho é enorme. é o lugar onde posso comprar uma latinha de chá de abóbora branca para beber enquanto ando pela calçada. onde vejo belos aspargos frescos, presos pela tradicional dupla de elásticos violeta. e um dos poucos lugares onde existem verduras que não consigo identificar. ou coisas que reconheço por analogia, mas que me surpreendem, como uma beringela de casca completamente branca.
saio de mãos vazias. não compro nada além do chá. quero apenas estar ali e aproveitar a minha liberdade.
falar das mercearias orientais me lembrou da minha história com a pimenta de sichuan. há cerca de dois anos ganhei um livro fascinante chamado "the food of china". entre as centenas de receitas, algumas pediam um ingrediente do qual eu nunca tinha ouvido falar: sichuan peppercorns, ou pimenta de sichuan. reproduzi essas receitas usando substitutos, mas permanecia a vontade de conhecer a tal pimenta. foi quando comecei a frequentar as mercearias. passava os olhos por todas as seções esperando encontrá-la. mas não era uma tarefa simples. o rótulo não estaria no mesmo inglês do livro, mas sim num chinês totalmente inacessível. é o momento, então, de fazer a pergunta: mas bruno, você não sabia como era essa pimenta?
- não.
eu tirava das prateleiras todos os vidros e pacotes suspeitos para olhar a descrição nas pequenas etiquetas (coladas sempre no verso) com a tradução em português. pimentas em pó, pimentas secas, tudo. (o termo inglês peppercorn deixava claro que se tratava de uma pimenta em grão, mas só fui considerar isso muito mais tarde.) eu buscava uma coisa sem ter a menor ideia do que era. é óbvio que não conseguia encontrar.
foi quando voltei ao livro. folheá-lo era um prazer, mesmo que não houvesse nenhuma intenção em reproduzir suas receitas. então eu a vi. nas fotos do preparo de uma das receitas que pedia pimenta de sichuan havia pontinhos avermelhados, claramente distintos dos pontos pretos da pimenta do reino. fiz buscas na internet para confirmar minha suposição e, finalmente, eu sabia a cara do que estava procurando.
na primeira visita que fiz à mercearia depois desse dia lá estavam elas, gritando por atenção, pegando minha cabeça para girar meu pescoço e me fazer notá-las. mas eu ainda precisava ser testado. tiro o pacote da prateleira e leio a etiqueta: "semente de coentro". mas eu conheço sementes de coentro muito bem, e não se parecem em nada com aquilo. seguro, falo com o dono da mercearia, que confirma e se desculpa pelo erro. termino minhas compras e volto para casa feliz da vida.
foi a pimenta de sichuan que me ajudou a entender: para encontrar qualquer coisa, você primeiro precisa saber o que está procurando. e quando você sabe como é essa coisa, nem os acidentes do dia a dia podem te desviar dela.
apesar da ausência de informações oficiais para embasar minha teoria, não tenho dúvida de que existe uma colônia oriental na região flamengo-laranjeiras. é composta em sua maioria por chineses e a artéria principal é o eixo rua cosme velho/rua das laranjeiras/rua marquês de abrantes. só de mercearias são três, mais do que consigo contar por todo o resto da cidade. e foi justamente a uma delas que me dirigi.
nos finais de semana, aquele último quarteirão da marquês de abrantes se assemelha bastante ao bairro da liberdade. falta ainda a feira, uma pena, mas o número de olhos puxados que cruzam meu caminho é enorme. é o lugar onde posso comprar uma latinha de chá de abóbora branca para beber enquanto ando pela calçada. onde vejo belos aspargos frescos, presos pela tradicional dupla de elásticos violeta. e um dos poucos lugares onde existem verduras que não consigo identificar. ou coisas que reconheço por analogia, mas que me surpreendem, como uma beringela de casca completamente branca.
saio de mãos vazias. não compro nada além do chá. quero apenas estar ali e aproveitar a minha liberdade.
falar das mercearias orientais me lembrou da minha história com a pimenta de sichuan. há cerca de dois anos ganhei um livro fascinante chamado "the food of china". entre as centenas de receitas, algumas pediam um ingrediente do qual eu nunca tinha ouvido falar: sichuan peppercorns, ou pimenta de sichuan. reproduzi essas receitas usando substitutos, mas permanecia a vontade de conhecer a tal pimenta. foi quando comecei a frequentar as mercearias. passava os olhos por todas as seções esperando encontrá-la. mas não era uma tarefa simples. o rótulo não estaria no mesmo inglês do livro, mas sim num chinês totalmente inacessível. é o momento, então, de fazer a pergunta: mas bruno, você não sabia como era essa pimenta?
- não.
eu tirava das prateleiras todos os vidros e pacotes suspeitos para olhar a descrição nas pequenas etiquetas (coladas sempre no verso) com a tradução em português. pimentas em pó, pimentas secas, tudo. (o termo inglês peppercorn deixava claro que se tratava de uma pimenta em grão, mas só fui considerar isso muito mais tarde.) eu buscava uma coisa sem ter a menor ideia do que era. é óbvio que não conseguia encontrar.
foi quando voltei ao livro. folheá-lo era um prazer, mesmo que não houvesse nenhuma intenção em reproduzir suas receitas. então eu a vi. nas fotos do preparo de uma das receitas que pedia pimenta de sichuan havia pontinhos avermelhados, claramente distintos dos pontos pretos da pimenta do reino. fiz buscas na internet para confirmar minha suposição e, finalmente, eu sabia a cara do que estava procurando.
na primeira visita que fiz à mercearia depois desse dia lá estavam elas, gritando por atenção, pegando minha cabeça para girar meu pescoço e me fazer notá-las. mas eu ainda precisava ser testado. tiro o pacote da prateleira e leio a etiqueta: "semente de coentro". mas eu conheço sementes de coentro muito bem, e não se parecem em nada com aquilo. seguro, falo com o dono da mercearia, que confirma e se desculpa pelo erro. termino minhas compras e volto para casa feliz da vida.
foi a pimenta de sichuan que me ajudou a entender: para encontrar qualquer coisa, você primeiro precisa saber o que está procurando. e quando você sabe como é essa coisa, nem os acidentes do dia a dia podem te desviar dela.
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